Escrever. Gosto de escrever. Será talvez por isso que, numa primeira fase, me decidi a abrir as portas do
adrianepandora.
Sempre escrevi muito, ao longo da vida. Mas todos esses retalhos de desabafo, estupidez, criatividade, fúria, amor, tristeza, alegria e o que mais se possa enumerar tinham sempre o mesmo destino, fosse ele um qualquer cesto de papéis, contentor do lixo ou mesmo, em dias mais tempestuosos, os quatro ventos, depois de a vítima do instrumento de escrita ter sido bem esquartejada, amassada e agredida.
Com o
adrian as coisas alteram-se. A forma passa a ser a digital e, ainda por cima, exposta, pública, e com
leitmotiv bem definido: jovens e bibliotecas. E os conteúdos partilhados, de forma abnegada, tal como é a
praxis que nos trouxe a esta caminhada e também a tarefa da biblioteca pública, em que desempenhamos o nosso
mister.
Mas depressa um blogue passa do que quer que seja para algo mais complexo, algo que sujeita à obrigação
de, algo que se estima, algo que se quer manter. Será talvez, o
adrian, a plantinha no parapeito da janela que me comprometi a não deixar morrer à sede. É já uma extensão do meu ser, porque reflecte um pouco de mim. A angústia invade-me se não o actualizo (como agora). Sinto-me mal, culpado. Quanto mais não seja porque os outros, os que foram lendo, apreciando, comentando, esperam mais. E, pelo menos no início, também eu esperava que eles quisessem mais. Agora que exigem, que indagam, o exercício - que de tão ampla liberdade parecia -, passa a ser de uma enorme responsabilidade. O que, bem pensado, está intimamente ligado: liberdade/responsabilidade. É justo.
Do dar e receber que adviria de uma experiência como esta sei - todos sabemos -, o número de comentários que cada
post gera. Mas também sei o número de visitas. Continuamos a viver num Portugal escrito com minúscula, porque nos fazemos pequenos (e porque nos fizeram pequenos, durante tantos e tantos anos). No Portugal tão bem descrito por Saramago n’
O Memorial do Convento e que, trezentos anos depois, se mantém tão actual. Somos, por muitos, vistos não como os que dão, se dão, que instigam à troca de sinergias, que espicaçam consciências, à laia de insecto patrocinado por Sócrates – o filósofo, não confundir! Para esses, seremos sempre os que se põem em bicos dos pés, os vaidosos, os que querem dar nas vistas. Porque pensar é ainda pecado, e verbalizá-lo – ou escrevê-lo -, ainda mais. Mas vêm ver, ler, espreitar, bebem à socapa. Beber podem - e devem -, pois o espaço é público. Intervir é que já não é considerado algo a fazer. O exercício da cidadania, pelas ruas da amargura, é o que é. E isso entristece-me.
E eu? Eu continuo a pensar - e penso que continuamos -, que a utopia de educar, cultivar, informar e difundir, de modo gratuito, é aquilo que nos faz mexer. Dá gozo, não cobrar. Dizer
aqui está!, tornando-nos facilitadores de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais culta e esclarecida. E como da profissão acaba por advir a devoção, cá estamos. Com mais tempo, menos tempo, mais
posts, menos
posts, mas cada um a fazer de bloguista, que mais não é que ser bibliotecário, de forma descomprometida e de modo digital.
António Variações – homem muito à frente do seu tempo -, cantava, em 1984:
Dar e receber, devia ser a nossa forma de viver. Materializava, em letra de canção, o espírito dois ponto zero numa época zero vírgula um. Nós damos, temos a certeza disso. E também recebemos, caso contrário esta caminhada não teria sentido (nem concretização). E, se profissionalmente, a experiência é compensadora, a título pessoal é ainda mais marcante!
Dar e receber, esta é a nossa forma de viver.
Um abraço!
adrian